sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Grioghar cabeça-de-runa

Desde cedo, Grioghar cabeça-de-runa se diferenciou dos demais de seu povo. Sua trilha se desviou do caminho da forja, comércio, guerras e das minas para aquém das ásperas e secas páginas do conhecimento. Seu gosto por livros e pelas artes místicas era tamanho que seu povo o isolou de seu próprio clã, o forçando a viver das paredes de pedra e ouro da sua ancestral casa. Hoje ele vive ora como um mascate, ora como um faz tudo, indo de aldeia em aldeia, cidade em cidade, na procura do seu sustento e trilhando seu caminho do saber para transcender os véus que nublam o mundo.



A verdade está lá fora...

Por Lucas Alves, o mago anão.

domingo, 23 de outubro de 2016

Felgus skilled-hands

Esta é a história de como um pequeno halfling se tornou um proscrito.



Sua história tem início em um pequeno vilarejo de pequenas criaturinhas que comumente são conhecidos como halflings – ou coelhos sem pelos –, mais precisamente na mais movimentada taverna daquele vilarejo. Seu pai, o taverneiro Filgum era o halfling mais divertido daquela região, mas não por ser engraçado ou atrapalhado em seus movimentos, e sim por trazer o mais puro néctar para as mesas da sua freguesia. Isso sim pode ser considerado diversão.


Esse simples e velho taverneiro possuía uma pequena linda esposa e dois filhos nanicos. A primeira se chamava Hilda, a contadora de histórias (título dado pelas crianças, que ansiavam por suas histórias ao acompanha-la para o riacho das lavandeiras); a segunda tinha o belo nome de Laila, dada por sua mãe e seu pai ao enxergar pela primeira vez seus cachos dourados e o seu sorriso que mesclava a luminosidade de uma manhã primaveril e a harmonia de uma canção entoada com o coração; por fim nosso pequeno halfling , Felgus de-cabelo-escuro – foi assim que foi chamado por seus pais e logo depois por seus amigos até o ocorrido, não por ser uma característica incomum entre a raça, mas sim por ser uma característica incomum em sua família onde todos possuíam a cabeleira loira com exceção de Felgus



Seus primeiros anos de vida, como os primeiros anos de vida de qualquer criança, foram rodeados por brincadeiras em qualquer lugar. O seu playground foi do pequeno vilarejo até o tronco caído do grande bosque, um pouco além do riacho das lavandeiras. Os seus inseparáveis companheiros de aventura não eram menos do que sua própria irmã e os três filhos do moleiro: Gild, Gem e Gund. Durante a manhã, o pequeno grupo se reunia na cabana do velho glutão e mal-humorado Filtch, o vendedor de frutas nas feiras semanais. Ali, os cinco ratinhos roubavam o que podiam carregar em seus bolsos e mãos da colheita do velho Filtch. O saque não ultrapassava de cinco maçãs e alguns cachos de amora, mas já era o suficiente para o velho ranzinza se retirar da sua mesa de desjejum, brandir sua pá e correr atrás daqueles coelhos pelas alamedas até que, cansando lá por volta dos limites do vilarejo, próximo ao ferreiro, ele voltava cabisbaixo para sua toca na colina, amaldiçoando aqueles pequenos seres. Depois dessa correria, os cinco aportavam em seu esconderijo secreto dentro do grande bosque e lá decoravam o chão com os restos das frutas devoradas. O dia continuava com o que viesse a cabeça, e na maior parte das vezes dava-se início à uma caçada pelos mais chamativos cogumelos e flores, sementes e mais frutos. A exploração dessa nova missão ia desde as pradarias descampadas até o interior do grande bosque, passando pela ponte-tronco, no lugar em que o riacho se alongava e aprofundava, tornando-se mais traiçoeiro e veloz, e pela orla do brejo, que dava início onde o bosque finalizava, divididos apenas por uma pequena trilha pavimentada. No fim do dia, todos se reuniam no riacho para escutar as histórias místicas das alegres criaturas do grande bosque em tempos que só os mais velhos conseguem lembrar, estas eram contadas por Hilda, a bela sábia Hilda.


O tempo passou, e com ele se foram antigos amigos e o surgimento de novos, rotinas antigas deixaram de ser divertidas da forma que eram e o grande bosque deu lugar aos pequenos jardins do vilarejo. O velho Filtch passou a vender toda a sua colheita. Tudo havia mudado para aqueles pequenos halflings, a coisa mais interessante agora eram as histórias de aventuras, vividas além do vilarejo e contadas sob o teto da taverna do velho Filgum pelos viajantes ocasionais. Muitas vezes se sentava Felgus ao lado para escutar em alto e bom tom, porém era logo censurado por seu pai em tal atitude, o que enraivecia o garoto que, em seu entendimento, não estava fazendo nada de mais ou incomodando alguém. Mesmo com as reclamações do pai, este não podia impedir a todo momento o seu filho de escutar o que se dizia naquele estabelecimento e cada vez mais crescia dentro daquele jovem halfling o desejo de ele mesmo se deparar com as próprias histórias à serem contadas um dia. Esse dia não tardaria à chegar.


Para que o seu pai não mais reclamasse, Felgus passou a utilizar de sua indescritível habilidade na flauta, ensinada por seu pai, para entreter ainda mais aqueles que na taverna iam para comer, beber, dançar e descansar. As sublimes melodias entoadas tinham como inspiração as tantas histórias contadas pela bela Hilda para seus filhos durante toda a vida. E assim o tempo passava, histórias eram contadas de forma oral pelos viajantes, e outras eram contadas em forma de música pelo mais novo bardo daquela taverna, que também arrecadava algumas moedas no ápice de sua performance e generosidade dos ouvintes.


Em um certo dia, um rigoroso e incomum inverno bateu a porta dos pequenos moradores do vilarejo, e para aqueles que lá viviam isso significava a escassez de alimentos e o fechamento das estradas que possibilitava o acesso dos comerciantes e qualquer um que pudesse gastar nos estabelecimentos comercias, assim beneficiando os comerciantes locais. Fome e doenças foram os fatores principais daquele cenário branco, e Laila, a jovem sorridente Laila, que não podia mais dar sorriso algum para ninguém, pois a doença havia atingindo até aqueles que não mereciam, e a morte era enamorada fiel da dor.
A tristeza daquele dia escuro e pálido abateu na corça que saltava o riacho e no rouxinol, que durante todo o dia ficou calado. A alegria havia abandonado aquele lugar e a melodia se tornou melancólica, triste e profunda.


O inverno, não contente com a dor do coração dos vivos, antes de partir vigorou ainda mais, trazendo mais doentes e mortos para sua sina. Com a vinda da primavera, a alegria se arriscou em dar as caras, sendo tratada com indiferença e progressivamente quebrando o gelo que petrificava os corações de todos, sem favoritismo.
Mas assim que o tempo cicatrizou as feridas, uma nova seria aberta no coração de um único ser. Com as estradas novamente disponíveis, o novo rei não tardou em cobrar os impostos acumulados pelos vilarejos no período do inverno, e durante três anos a coroa sugou até a última gota qualquer um que residisse naquele reino. O velho Filgum não possuía mais nada, o inverno havia perdurado tempo demais, os prejuízos foram enormes e a coroa, sem mover qualquer socorro, possuía alma gananciosa. Percebendo a falta de competência de seus súditos em questão dos impostos, o novo rei não pensou no porquê de tal ocorrido e sem pestanejar decidiu impor uma política de repressão naqueles que ele considerava radicais e que, para ele, iam contra a coroa. Essa política consistia simplesmente em aplicar consequências severas àqueles que mais deviam à coroa para que motivasse o povo no cumprimento de seu dever e sanar as dívidas dos impostos, e assim foi feito: a primeira casa a sofrer as consequências foi a taverna do velho Filgum, tendo como castigo um covarde incêndio no meio da noite. Enquanto todos adormeciam, o fogo se alastrou por toda a estrutura de madeira consumindo tudo que via pela frente. O que acordou os proprietários foi o cheiro da fumaça, esta que já invadia todos os cômodos daquele lugar. A família inteira estava ilhada no segundo andar da taverna e o fogo estava começado a explodir as garrafas de bebidas do balcão de baixo. Não houve gritos, não houve lágrimas, havia muita fumaça para que pudessem pensar em qualquer coisa. Apenas um inesperado movimento do velho Filgum foi o suficiente para que ao menos um dos três conseguisse a salvação, pois ele observou que, com a queda de uma das vigas de madeira no chão, o fomo se dissiparia naquele lugar por alguns segundos e logo voltaria a levantar seu muro, e com um forte empurrão no filho, Felgus alcançou a porta da frente.


Depois de se recompor do susto do movimento, o jovem halfling olhou para trás e observou em detalhes o momento em que mais uma viga em chamas se rompia e caia sobre os seus pais, que apenas observavam, com lagrimas nos olhos e um leve sorriso no semblante, o seu filho paralisado com todo aquele ocorrido. O som foi silenciado.

Após aquela aterrorizante noite, Felgus, antes de partir daquele lugar que foi o seu lar até aquele momento, retornou aos escombros em pura ruína e brasa, e quando observou os corpos de seus pais carbonizados ele chorou, mas logo partiu errante na estrada.

Depois de algumas horas de caminhada, ele avistou o vilarejo vizinho onde constantemente ia com seu pai para buscar suprimentos para a sua taverna. Ele iria passar direto se não fosse pela fome e sede que sentia de tanto caminhar. Ao chegar na soleira da porta, ele tocou o punhal que sempre carregava consigo e girou a maçaneta. O lado de dentro estava quente e musical, muitas vozes se entrelaçavam e a bebida era mais derramado no chão do que consumida. Em um dos cantos mais calmos da taverna havia uma mesa retangular de carvalho, nela estavam sentados quatro homens e um deles narrava, no nível mais alto que uma embriaguez pode chegar, a sua eficiência no cumprimento da lei. Um quinto estava no balcão com o estalajadeiro. Todos sentados à mesa trajavam as mesmas vestimentas, uma cota de malha, e carregavam o mesmo símbolo real no peito, apenas aquele sentado no balcão possuía uma vistosa capa vermelha e um tabardo real sobre a cota de malha, o posto de líder daquela comitiva estava bem claro naquele homem. De todas aquelas conversas, a que mais interessou o jovem halfling foi a contada pelo alegre soldado bêbado, então ele parou e se sentou em uma mesa próxima ao balcão e a mesa dos quatro companheiros. 
Enquanto o jovem
 halfling bebia uma caneca de cerveja, aqueles quatro homens, que estavam entretidos demais na sua conversa para perceber uma pequena figura encapuzada naquela multidão, já todos embriagados, soltavam qualquer pensamento que viesse a cabeça, assim, um deles comentou sobre a raça dos halfling e sua incrível resistência em não expressar dor enquanto ardem em chamas e também sobre a sua frustração em não ter escutado grito algum depois de ter colocado fogo na taverna do outro vilarejo. Essas palavras, mais que qualquer coisa, inflamou um terrível ódio naquele halfling que sorrateiramente caminhou até por detrás do soldado mais alegre, desembainhou o punhal e transpassou o pescoço na parte da frente e deslizou até a nuca, formando assim um semicírculo de carne fria, sangue quente e cerveja recém ingerida.
Aquela ação foi tão inesperada quanto chocante, e os soldados demoraram para processar tudo aquilo de maneira rápida. Com essa oportunidade, o
 halfling se somou na multidão para fugir, mas quando se aproximava da saída escorregou na cerveja e caiu no chão, com esse movimento seu capuz foi para detrás da cabeça e a luz da tocha terminou o trabalho revelando quem estava por detrás daquele assassinato. Felgus não tinha para onde fugir, seu rosto havia sido revelado e todos souberam que foi ele quem matou um dos soldados reais.
Rapidamente, com sua natural aptidão para se esgueirar, ele fugiu da estalagem e partiu em disparada para longe daquele lugar.
 Os solados foram atrás a cavalo, mas logo perderam o rastro quando este seguia para a floresta.

Felgus não pensou duas vezes e decidiu que iria sair daquele reino, pois ali ele não passava de um procurado, um proscrito. Passou a tentar uma vida de mercenário em outros lugares longe dali, realizando assim de certa forma o seu sonho.










Um passo mais próximo da imaginação.